Situação-fronteira

Quente quente aquela manhã em que o País ia a votos. A expressão “ir a votos” tem a mesma conotação que a expressão “ir a banhos”, especialmente porque ambas partem e chegam a um pressuposto comum. A agua. Pode até afirmar-se com alguma margem de segurança e confiança que se irá mais tarde ou mais cedo meter agua. O epílogo será um género de foz que desaguará na miséria do povo e no seu empobrecimento brutal. A nascente politica deste mar constitui-se na campanha eleitoral, feita de festas e jantaradas despropositadas e miúdos com cabelo arredondado e de cores garridas que vão gritando de dedos eriçados em V de vitória por um nome, apenas um nome. Um nome feito de cores. Os vermelhos são-no pela atracção física da cor, os laranjas, os amarelos e os verdes também. Poucos se importam pela direcção, todos se preocupam com o divertimento eleitoral.


 


Enquanto isso eu vejo as caravanas eleitorais passarem. Também se adapta a expressão, “os cães ladram e a caravana passa”, existe muito rebuliço à passagem e muita serenidade depois de vendida a festa dos votos e da sedução. Existe uma força política neste inventado País que pretende arrumar muito bem arrumadinhos, arrumadores, proxenetas, traficantes, gente de cor diferente, prostitutas, drogados, aleijados e pedintes. Arrumá-los com escreve o Alexandre O´Neill no soberbo texto sobre arrumação, que eu dito ao Morgado.


 


"Numa situação-fronteira, como esta, vale mais ter graça do que andar armado. Prazenteira como parece, esperará a mulher que a reboquem por mau estacionamento? O Largo das Duas Igrejas é um dos postos mais apropriados para quem vive de esmolas. Passa por aqui muita gente, muito boa e muito má consciência. A mulher está no seu posto. Como os painéis publicitários, os sinais de trânsito, etc. Que quer dela o agente da autoridade? Desalojá-la para que outro pobre, com mais direitos, venha ocupar o seu lugar? Afastá-la momentaneamente para que passe um nutrido grupo turístico? Nunca se saberá. A não ser indo lá e experimentando..."


 


Espera-se mais tarde ou mais cedo fazer a defesa nacional com uma linha de excluídos para barrar a entrada no nosso País, para quem vem ao engano, julgando ser este pequeno País solarengo um jardim à beira-mar plantado. Povoar a zona raiana de excluídos sociais seria uma medida politica adequado à explosão populacional e demográfica. Não sei se me povoariam por aqui ou por lá.


 


Sabes, disse eu ao velho amigo Morgado companheiro de assentamento no banco de jardim, maldizente convicto por ser bom observador e um ser intuitivo mais que informado. “As pessoas que pensam e têm massa critica também são incómodos, logo seremos candidatos à fronteira. À linha de divisão dos calados, dos não calados e cooperantes. Nós a final também levantámos os dedos em V à passagem da caravana. Não em V de vitória, mas em V de vergonha”, naquela manhã quente quente em que o País ia a votos. Sorrimos e fomos. Ele para a família eu para a minha amada solidão.

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