Observatório sul
Deixa arder o fogo que o teu coração emana. O coração não envelhece. Os corações aproximados não têm problemas de linguagem. Usam uma linguagem universal que detém todas a formas de expressão existentes. Não se alimentam somente de palavras.
Quando nos descobrimos, descobrimos que não vivemos apenas connosco. Descobrimos a presença, a ausência e o passado. Descobrimos quem por nós passou como se não tivesse passado. Descobrimos quem por nós passou, ficou e ficará. Esta inteligência emocional aguda desconsertou-me para me construir.
A minha imaginação pode fazer de mim um poeta. Os meus versos não são imaginados, são reais e fortes, são palavras desiguais e em conformidade. A minha imaginação pode matar-me e ressuscitar-me. Fazer-me nascer de novo. Nasce-se em vida mais do que uma vez. Nasce-se tantas vezes quantas aquelas em que se morre.
A nossa existência e a nossa vivência são a verdade que nos resta. A fé e a esperança são as horas do dia. A caridade as horas da noite. Já pouco interessam as pessoas por conhecer. As palavras ditas ou por dizer. Interessa apenas abraçar o mar e estar com pessoas, onde as palavras não existam, mas caibam. As palavras cansam-me, maçam-me e aborrecem-me, vindas de bocas pensadas sem raciocínio. Detesto palavras qualificáveis. Encontro milhares de palavras que qualificam naturezas dolosas que se querem reconstruir com palavras, como se uma reconstrução se tratasse. Imagino pessoas com gruas a seu lado, muros a erguerem-se, martelos pneumáticos ensurdecedores que não deixam existir coisa nenhuma, taipais, fundações.
Somos uma obra inacabada, jamais seremos reconstruções consumadas de palavras. Somos coração e o coração não envelhece. Entediante falar sem sentir, viver sem viver, estar por estar. O coração ama, sente e sangra e volta a amar quando cicatriza.
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