Pêssego lagartoso

Passei pelo luar esta noite. Estava cheio. Cheio de luz. Encadeou de chama os meus olhos. Lembrei-me do meu pedaço de mar moreno, que fica prateado em noites como aquela por onde passei. Esta noite veio-me o sabor a sal e a saudade aos lábios. Soltaram-se-me lágrimas desavindas, cansaço, e melodias que não tenho ouvido.  Veio-me inesperadamente a nostalgia das madrugadas acordadas por pequenos raios de sol e músicas em alaridos do lado de fora de mim. Rebentaram-me viagens, o cortar a serra ao meio pelo vale das vinhas mortas. O cheiro a mato rubro e giesta. As pedras desfalecidas e escuras do caminho. Os acordes que dedilho em silêncio e as musicas que faço indivulgáveis. Recordo o anonimato seguro e prazeiroso da grande cidade. O olhar perdido e depositado em cada onda amansada. Os cheiros. O cheiro a agua doce. O cheiro a agua salgada. O cheiro das estações e do pôr-do-sol. Do infinito. Os abraços cheios de braços envolventes e envolvidos. O dejá-vu contante, contente e desconsolante dos caminhos. A maresia dos sentidos, o mar alto e as marés vivas, emanadas de sinais lidos por pedras preciosas que colherei e passarei num fio que te porei ao pescoço desposado. As manhãs cálidas inventam a sedução amarga de sabor agro e doce como um olhar teu. Emaranhas-me, prendes-me e possuis-me como se o mundo não existisse, ou só nele nos habitássemos. Oiço-te roufenha de um desejo gemido que crava as mãos em mim dentro e soluça baixinho um: “esta noite passei pelo luar” … “pêssego lagartoso”.

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