Preciso de “mim” feito de um “eu” novo
Preciso de um novo sangue, de novas mãos e um novo olhar. Preciso de uma nova alma e um espírito aguçado. Preciso de um novo país e uma nova cidade. Preciso de “mim” feito de um “eu” novo. Encandeado de promessas submeto-me à vida. Prefiro ler poemas a ouvir os discursos dos políticos, prefiro um prado verde semeado de pão aos discursos miserabilistas e adiados. Prefiro um rio lilás a um mar sem marés. Gosto do sal brotado e silencioso que tempera o meu olhar. O Outono desprendeu-se em mais uma estação. Indiferente, o espaço reduz-se em partículas. As horas carregam a noite mais cedo. As manhãs frescas e salpicadas de orvalho despertam-me. Livre nasci, para viver preso nas horas falseadas de afazeres e responsabilidades que não o são.
- Não poderei ler ou escrever quando me apetece?
- Decidir chorar ou sorrir no fragmento de tempo que mais me convir?
- Saborear a lua batendo na recta de rio que desfalece nas margens?
- Imaginar sóbria a minha loucura?
- Não poderei nunca?
Como eu queria ter na minha boca o amor reluzente e inolvidável, ser a extensão da individualidade interminável da planície calma que o teu abraço contém. O nosso verdadeiro valor está em sermos nós próprios, fortes e frágeis. A minha casa de madeira construída no sopé da montanha guarda de mim as noites. A minha viola dedilhada suavemente na urgência da calmaria. Lembro os que se foram, os que estão mais adiante, os que me vêem sem serem vistos. Os poetas que alimentam o meu sentir. O meu “eu” feito de “mim” novo.
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