Principio, meio e fim

Entre noites e dias, claridade e penumbra, querer e não querer, vontade e anti-vontade, esperança e pôr-do-sol, madrugada e empenho, volto-me dorido de uma dor boa e suportável. Os sonhos habitam-me os raciocínios e ideias que executarei mal brilhe o raiar do dia e o sono se solte e apegue ao desejo vigilante de um continuado trabalho por findar.


 


Os dias lá fora são quentes e o verão espraia-se longínquo. Dentro de mim ardem reflexões e concepções. No tribunal as noticias são as mesmas, feitas de discursos eloquentes de culpa formada e contraditório ausente. Borrifo-me para isso, o poder resolverá. Penso nos fracos da história, os excluídos, os desacreditados. Sou solidário por convicção.


 


Enquanto isso, surgem letras contadas em cascata, juntando-se em turbilhão num lago que irriga os campos onde sei que florescerão frases, que na colheita serão parágrafos e farão sentido. O meu sentir é quebrado aqui e ali pelo modo terreno de existência. Desço à terra acordado por um café que não me abandona e me conforta.


 


Oiço música na rua, gargalhadas vividas e conversas frescas de madrugada. Os acordes embalam o meu raciocínio ausente e distante, rápido e límpido em jeito de companhia. De vez em quando solto uns discursos incoerentes no espaço, mas coerentes no sentido. Descubro textos, musicas, poemas, no meio deste trabalho que não me larga.


 


O trabalho retira-me a liberdade mas não me exclui, inclui. Adormece-me, acorda-me, alimenta-me, fere-me e gere-me. Introspectivo e solitário faz em mim partícula temporal. Desenquadra-me e ajusta-me. Escolhe e retira-me o poder decisório. Avança e recua. Cresce e espreguiça-se. Tem vontade e vida própria. Tem um principio, meio e fim.

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