Fujo das elites pedantes

Fujo das elites pedantes que esvoaçam gargalhadas domingueiras, na tarde solarenga da esplanada perfumada de channel nº5. Na mesa ao lado escrevinho uns apontamentos que me ocorrem de um trabalho por concluir. Espreguiço-me ao sol e ao rio que passa em frente. A chilreada continua na mesa ao meu lado, numa enjoada conversa acerca de quem passa, do jantar de quarta-feira passada com o querido do Tó, e dos piropos que este lhe enviou. Olho o céu e salto para uma nuvem. A conversa do lado contínua agora num tom mais baixo, um tom de pecado e crime, onde se aborda a mulher do Tó. A pindérica da mulher do Tó, que eu entendo ser afinal a sua rival. Ficou claro para mim. A tia está-se a fazer ao Tó. E quem é o Tó afinal. O Tó é um jovem yupie do centro moderado, fã do passos coelho e bem encostado na vida. Não tem título nenhum conquistado, mas o dinheiro dá-lhe o estatuto de doutor, e monta-se em três amantes, numa secretismo desequilibrado do desejo que tem de mulheres. O Tó é enfadonho e maçudo, mas tem um maseratti e uma empresa de reciclagem de não sei o quê. E eu ali, distraído com o rio, as nuvens, o sol a bater-me quente nos cornos, o café e a água, o perfume da channel da rica, e a história das que passam, dos sapatos das que passam, o jantar de quarta-feira passada regado a piropos, e da vida da mulher do Tó. E eu de ar distraído acabei por me divertir, escrevinhar e ver o quarto crescente começar a brilhar na noite.Fujo das elites pedantes que esvoaçam gargalhadas domingueiras.

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