Girassois planetários
Tenho o teu nome cravado no peito e o teu olhar encravado na garganta. Não consigo engolir. A tua alma aniquilou-me, já não durmo. Tenho os meus ossos doridos e um fenecimento autorizado e aliviante nos meus dias. Não saber de ti naquela plebe, não te ver naquele jardim, não ouvir os teus passos no empedrado da rua sem horas feitas por bocados de mim que te esperam, faz de mim todo, ausente. O inferno desceu e habitou-me. O inferno não existe depois da morte. O inferno existe na vida plantado em mim. Existe extinto como um fogo tórrido e gélido, como o teu olhar no dia em que partiste. As paredes-meias com o paraíso ruíram em fragmentos, a tua boca feita de saliva doce arrependeu-se na minha. As mãos com que talhamos o destino violaram-me de desilusão. Os sorrisos feitos de sal e mar afogaram-se na maré. As promessas juradas ao luar desvaneceram-se e minguaram na lua seguinte diminuta. A fogueira que nos aquecia foi apagada na enxurrada desprevenida e repentina. O sítio gasto por nós está desvalido. Minha senhora da ausência me ajude na prudência desta loucura que me invade como um terramoto, que me invade como se a vida se tornasse morte. Assim choram os poetas desta dor fingida que sinto forçada num momento de inspiração, apenas porque preciso de gastar palavras soltas e banais. Minha senhora da inspiração seca-me as lágrimas brotadas em rebento nesta sementeira desordenada de mil anos por viver. Viver sem sentir dói mais, que sentir este campo salpicado de girassóis em sentido contrário ao movimento redondo e circular da terra em volta do sol. Vive-se sentindo. Sentir sem viver não é vida. Viver sem sentir não á vida também.
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