O dia repõe-se

Acordadas choram as árvores ao rio, lágrimas prenhas de adiamento. Cáustico flameja-me a ironia de olhar atónito e bizarro. O dia repõe-se pondo-se. Correm ventos por serem mais que um. As nuvens sopram umas de encontro a outras. Escurecem. As margens unem-se e obrigam-me a desviar. Desvio as palavras por dizer. Sufoco os pensamentos. Aniquilo a verdade e ressuscito a mentira, qual republicano ardendo de monárquico num solo a cinco de Outubro, enfeitado de bandeiras despregadas verde rubras e fatiotas pirosas enfeitando anormais de discursos decorados em cem anos seculares. Quero a alquimia do deleite e a simplicidade de um movimento de lábios sorrindo. Quero uma lágrima encantada e um abraço de presença. Enterro os pés na areia e caminho com os pés gelados de inverno praia fora. Oiço o farol romper o nevoeiro. Assaltam-me pensamentos de um novo período. Vagas de lume encandeiam-me. Espero o sol debruado a ouro nascendo nevoeiro adentro. Adormeço onde as árvores que choram ao rio, prometem.

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