Sete corações
Aos homens de coração de pedra dedico este ensaio sob forma de anúncio. Anuncio dia da mulher a oito de Março. Dia da Liberdade a 25 de Abril e dia dos trabalhadores a 1 de Maio. Esta “coisa dos dias de qualquer coisa” é lembrança escusada e hipócrita. Existindo um dia de “qualquer coisa” excluem-se os restantes.
Assim sendo anuncio todos os dias como se fossem novos, únicos e últimos. Anuncio a existência, a desistência e o pragmatismo. A todos os homens que decidem a vida de outros homens. Aos que lideram. Aos que julgam. Aos que punem. Aos que executam e aos que inventam dias “de qualquer coisa”, anuncio a existência de vida.
Existe vida constituída por seres humanos. Existem pessoas. Não existem sexos. Existem seres humanos com direitos iguais. Com direito a existirem. Alegra-me partirmos como chegamos. Desprovidos de bens. Alegra-me a alma encarregar-se do resto.
Sinuosa e vertical a descida para o mar. Salgo a minha pele em braçadas vigorosas frente às ondas que me elevam e me fazem sentir pequeno, inofensivo e sem ego. Flutuo no mar e quase toco no céu. Desço, elevo-me, elevo-me e parto, parto e regresso, adormeço e acordo, e amoleço o coração. Quem vê caras não vê corações. De coração por embelezar disponho-me a cantar e aguardo o momento.
Sete sois me aquecem,
Sete luas me guardam,
Sete montes me separam,
Sete baladas me embalam,
Sete sentires me possuem,
Sete demónios me ajustam,
Sete deuses se me apresentam,
Sete prosas me seduzem,
Sete poemas me encantam,
Sete corações de melodia,
Sete pares de sete olhos,
E sete saias me atormentam.
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