A impotência da modificação estrutural do desejo
O céu enegrecido de nuvens transparentes carregam formas baças que embaciam os olhos de saudade engrandecida. Os portões semicerrados escancaram uma alma seminua e assustada. Branda a impotência da modificação estrutural do desejo. Como eu gostaria de alterar a estrutura física do desejo, como se de uma molécula manietável se tratasse. Como seria o meu corpo se fosse um laboratório e lá eu pudesse decidir ou não este sentir. Vejo uma sala branca e iluminada, com tubos de ensaio e os meus órgãos em cima de uma bancada, mutáveis, numa transformação escolhida. Quero mudar de cor e experimentar ser negro, ter canção e ritmo e um novo soro a correr-me nas veias injectadas de vida, mais que morte outrora injectada. Quero experimentar pensar duas vezes sobre o mesmo assunto, antes da impulsividade de uma decisão adiada ou tomada. Escorreito deliciar-me com um novo oxigénio e uma nova fonte descoberta e límpida de pensamento. Depois vejo-me reconstruído, continuando imperfeito, que não é na perfeição que busco e acredito na verdade e felicidade. Vejo-me a voar no céu escolhido e a mergulhar no meu mar preferido, enroscado nos braços ausentes que tanto quero presentes. Abomino o ruído em prol de sons melodiosos que me embalem ao passar na floresta onde construirei a minha casa com cheiro a madeira e fogo. Dedilharei na minha viola uma canção escrita por mim, de uma vida que não vivi, de um conhecimento desconhecido aos outros, da minha inteireza rainha, feita do meu “eu” celebrado.
Comentários
Postar um comentário