Espalho-me
Espalho-me na cama ao acordar. A viagem que me levou ao lago vermelho foi atravessada por uma planície de eucaliptos com aquele cheiro que me entra pelas narinas em rompante direcção aos pulmões, coração e mente. Chego ao lago e deito-me na margem coberto pelo céu estrelado e baixo. Uma tontura invade-me como se sentisse o movimento circular da terra. O silêncio redondo como a lua embala-me. Tempero a vida com momentos meus e precisos. Dou-me bem com a escuridão e o silêncio. Preciso de me encontrar com eles e gozar a sua presença e doçura. O sol mais tarde cegou-me em raios que eu fintei com o olhar. Deixei-me invadir por pensamentos e sonhos. Sonhos claros e cristalinos como música de água a escorrerem em seixos no seu caminho em direcção à foz. Musica, inspiração devota. Percorri um corpo imaginado prolongamento do meu. Masturbei-me no sentido prazeiroso de os meus pensamentos serem reais. A masturbação é pensamentos recordados e saudados. A masturbação tem pouco de acto físico e quando o é, perde o encanto da recordação dos momentos. A masturbação é o conhecimento, é algo que se conhece e sentiu. É pensamento. É mistura de pensamentos. É o acto tântrico dos momentos prazeirosos de mar, sol, luar, mãos e toques, olhares e palavras certas. Espalho a noticia, espalho a delícia de me espalhar na minha cama ao acordar.
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