Na mouche
Equilibrei-me de bêbedo sentido e joguei no alvo as setas. No centro um ponto avermelhado acenava-me. Na primeira seta seteie firme na sua direcção, era o arremesso ao significado da mais que palavra, amizade. Na mouche. Acertei mesmo no centro.
Segunda seta. Firmei no alvo o meu olhar e era a hora de acertar moribundo na minha maior vivência passada. Errei. Acertei longe, mesmo fora do alvo. O que tinha vivido lá atrás estava vivido, jamais poderia voltar a viver, não mais acertaria onde outrora já tinha acertado.
Terceira seta era para mim mesmo. Para a minha força, decisão, pensamento, estrutura, e o poder de alterar o que quer que seja, assim o sonhe e decida. Centrei-me ao centro, centrei-me na minha vida e lancei. Quase no alvo. Este quase não é mais do que apenas o trabalho que existe entre o acaso que deus nos dá, a que chamamos sorte. A sorte é o intervalo entre a preguiça e o trabalho.
Quarta tentativa. Quarto lançamento. A minha família. Um pouco ao lado, quer dizer que sem ser perfeita é incondicional. Tem revolta e sossego, amor e ódio, presença e distância, sal e sol, madrugada e pôr-do-sol, ventos e marés e a incondicionalidade de um porto seguro.
Quinto e ultimo lançamento. O meu eu feito de mim mesmo. Tal como o primeiro na mouche. Impossível não me suportar, viajar sem mim, deter-me nas minhas vontades, adormecer-me ou acordar-me, navegar fora de mim, ser dono da minha impotência, controlar o que quer que seja. Resta e basta redimir-me à minha existência, dor, drama, alegria, insanidade, euforia, e das minha partes separadas ser um todo feito de mim, incontrolável, indeciso, desconhecido, pertença, alegoria, fábula ou parábola, invenção, adição ou serenidade. Na mouche.
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