Dita dôr

Sacana pá, és um sacana respondi. Ele olhava-me com um ar esfumaçido. Sei que nunca me tinha visto de cima deste olhar raiado a vermelho sangue, a enfrentá-lo sério e assertivo sem estar próximo mais que este mundo, de qualquer retirada de tom sério à nossa conversa. Continuei perguntando-lhe: sabes o que é um sacana? Ele quedava-se com o olhar de encontro ao céu, mas ao contrário, porque aquela laia de gente nem sabe o que o céu é. O céu para ele não é celestial ou tem estrelas, nuvens, lua e sol embelezando-o, para já não falar do que é o céu, conforme cada um o concebe ou não. És um sacana continuei, não te anuncias, instalas-te, deixas o dinheiro fazer as minorias e as elites formarem grupos fazedores de dor em uníssona voz feita, de milhares de espoliados e oprimidos, castrados de acessos apenas. És um sacana, nunca escutaste uma madrugada ou um rouxinol. Para ti um pôr-do-sol é apenas o término de mais um dia de trabalho, sinal de que a fundição se irá apagar e as peças não se reproduzirão mais. És um sacana impiedoso que adoras dinheiro, doença e África. Seu dissimulado. Não vês o teu povo. Não vez as camas onde se deitam, os rios onde se banham. És isento de emoção e deslumbramento, cruel besta do destino de quem se sacode nove meses num ventre, e mais nove de calcorreio de ruas de pó e pedra, e outros nove de força dispendida, restam nove a caminho da morte, São estes os anos dados às tuas crianças. És um sacana, que não merece o sorriso dos teus, a esperança, a submissão da troca das noites pelos dias e dos dias pelos amanheceres e dos amanheceres pelos cornos traçados na vida e investidos em nada. Nunca me faltou nada. Dificuldades não são faltas. Falta é,” isenção de”. Dificuldade é adiamento. És um sacana seu dita dor. Ditador.

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