Mali
Já escrevi de muitas formas. Sempre na procura de encontrar um conteúdo que me estivesse a queimar a alma. Já escrevi porque sim. Já escrevi porque não. Já escrevi porque criei ou empreendi. Já me vesti com outra roupa ou despi a minha para escrever. Já me imaginei louco e sane, pássaro ou sol, lua e trovoada. Já fui maré e mareante. Já fiz de tudo por uma boa desculpa para escrever. Mas nunca me lembro de me ter sentado para escrever como hoje. Sem qualquer motivo para o fazer. Fui de férias para onde escolhi e ainda nem sequer a casa fui. Do aeroporto vim para um hospital. Como uma febre daqueles que tal como o país que visitei, o Mali, acontecem. Quatro dias de exames, tira sangue dali para acolá e de acolá para ali, e já com o cognome do senhor do Mali. Uns aproximam-se e são carinhosos, outros acham que posso ter um mal muito maior do que o declarado na fronteira, e não vá o diabo tecê-las, são mais frios e julgam-se mais profissionais e subtis. A diarreia acalmou. Agora sabemos que o que quer que seja é no intestino, está controlado, mas temos que lhe dar um nome. É disso que andamos à procura. Ainda nem reparei no privilégio que foi a viagem e a mudança que de certeza em mim causou, tão obcecado estou comigo e no meu regresso ao lar, à minha comida e água, e ao meu cigarro antes de voltar a trabalhar na segunda parte do dia. Na resisti e mandei vir o computador. Não vou resistir e amanhã mando-o ir novamente. Tenho saudades de estar à volta de uma mesa com algumas pessoas. Ainda nem vi, as mais de duas mil fotos que tenho para ver, mas porventura pouco falta para levar a bilionésima agulha espetada num sítio qualquer por mim acima. Até breve amigos especiais.
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