E assim se faz o luar

Não entendo a forma, entendo o conteúdo. A contemporaneidade tornou-se quase numa filosofia baseada no medo. Pensa-se quando se devia viver, vive-se quando se devia pensar. Os conceitos não são como a matemática, são voláteis, abrangentes e globais. Os extremos tocam-se e até se poderão complementar. O meio-termo pode ser um atalho, um acerto, ou um erro. Pode ser um desvio. Pode ser padrão. Pode ser um caminho. Viver significa sentir. Significa não ter medo de sentir. Vive-se com o que se sente, e, não com o que se pensa. Engano-me bastantes vezes com o que penso, não me engano com o que sinto. Se sinto, sinto, está sentido. O exercício do pensamento também está fora de moda. Com isto de maneira alguma pretendo retirar a importância à cognição ou raciocínio não lógico e/ou lógico. Pensar é entrar num mundo decisório e emocional divergente. Não dissocio um do outro, mas também não me ajusto com meios-termos, termos e meios ou extremos. Enquanto reflicto o mundo inclina-se e reflecte a luz do sol na lua, e assim se faz o luar. Agora, neste momento, noutro continente. Mais logo à minha janela. Enquanto me descrevo nesta escrita a maré vaza e o mar endiabrado diverte-se. Enquanto me divirto nascem e morrem seres humanos e outros há, que nem vivos ou mortos estão, de tão amorfos e amarfanhados estarem nos seus egos e prazeres mundanos. Levo o que vivi. O que adquiri, cá apodrecerá. Também não me faz falta nenhuma. Faz-me falta viver e ser. Dar-me e ter-me. Estar e abraçar. Ser amizade e presença. Partilhar. O mundo de uma forma cíclica retorna-se a ele mesmo. A contemporaneidade transformar-se-á em caducidade. Os sonhos voltarão a brotar das flores e a enfeitar os sorrisos de florestas. O céu voltará a ser da sua cor e as mãos voltarão a dar-se, numa luta continuada e genuína de quem quer vida como liberdade.

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