Gosto de papoilas
A saudade dispendida nos encontros adiados é como o céu imenso salpicado de estrelas, sem a constelação que procuro para desabafar. O meu olhar de saudade inventa faces de sorrisos e a minha alma deposita-se em murmúrios chorosos. Amanhã brilhará por certo o reencontro. O desencontro esgotou as tentativas. Assim sendo só sobra o encontro. Duas almas que nunca se fundiram são almas puras e abertas. O excesso não é fartura. A fartura existe depois do excesso. Fartura no sentido de farto. Entendo que a fartura devia ser abolida pelo quanto baste equilibrado. Sempre vivi no limite de me fartar do excesso. Sempre adormeci cansado. Não descansar de ter, de ser, de ouvir, de ler, de cantar, de tocar, de amar este desamor a mim. Retorna sempre este círculo, esta espiral, este ponto de partida não evolutivo. Cansa-me a falta de descanso. Sobriedade não é sanidade. Não quero este olhar meu sem o teu. Espreguiço-me e bocejo nesta falta de adormecimento, neste soneto interior que me mantém acordado. Intacto, forço-me a respirar este ar que não é meu. Gosto de papoilas. Gosto do mar onde elas se plantam e das dunas onde me abraçam. Gosto do céu a que me elevam. Desconfio sem razão aparente deste momentâneo bem-estar. Quero a seda do teu beijar e as tuas mãos dentro do meu arrepiar. Saudoso este cristalizado sentir emocionado. Ainda não andei no baloiço lilás da tua cor, ainda não vi os cisnes ao romper da aurora. Coisas simples tem este meu desejo de descansar. De me dar. De ficar. De confiar. De ser. De arriscar. De ter.
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