Invisíveis fontes

Quanto mais inventado mais verdadeiro. Invento um miradouro nos teus olhos, uma viagem imaginária. Os teus dedos apontam-me a presença. Sei que é primavera pelos teus passos e noite escura disponível para amar. Sinto refugiada em mim uma vontade guardada de ti. Os meus olhos vêem em arcada, outras vezes plenas e distorcidas grinaldas. Semeio pérolas que não colho, invisíveis são as fontes onde bebo alegria. Sábado tarda a tarde de anteontem. Desiludo-me no promontório quando não avisto nem Maio, nem cravos. Os cravos transformaram-se em escravos e a greve em sacrilégio e pecado mortal. Boicoto o silêncio com um grito. Viva a liberdade. O romance ledo e frívolo que devoro em páginas degustadas chegou ao epílogo. Recapitulo os adjectivos e sinónimos escritos de mim.


 


Como pode o autor me ter descrito se nunca nos vimos? Será que existe uma matriz? Um tipo padrão destinado a mal amar? Será que o nevoeiro que me enche os pulmões é azul?


 


Ontem as borboletas poisaram na mesa do meu quintal. Uma em cada esquina, como que a decorar o equinócio cruzado pelo Equador celeste. Os versos que eu fiz ninguém vai ler, ver, ou sentir. O autor morreu. A ausência é como a sede, definha. Não há fonte que a mate, se não brotar da presença a nascente. A saudade é como a morte, não há vida sem comparência. O medo é falta de luz e não há luz como a do teu olhar. A fonte onde me encho de alegria fica a seguir à curva da ausência, no alto da duna sobranceira ao mar.

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