Sou o Faroleiro

Se porventura de dentro das minhas mãos soprasse uma brisa que me encandeasse o contemplar, jamais o meu olhar enlouqueceria com as tuas mãos. Ao ver-te inundada de distância, pressinto um agoiro, uma premonição, uma sensação tórrida que me gela o coração. Na planície em que me sento, revejo a perder de vista o teu tamanho, muito maior que a tua altura. O Tejo endiabrado circunda-me tempestuoso e irriga esta ilha que inventei. As cores desvanecem e coloram cada pensamento parido de mim. Redescobri-me incontactável, deixei endereço incerto e contacto errado. Sou o erro acertado e legitimo da decisão que tomo. Já não sei se tomo, já não sei se decido. Não me sinto acordar nem adormecer. Do nada surge um vulto. Veio semeado de chuva. O vento colorido encantou-me de presença. Abruptamente oiço:


 


- Quem és?


 


- Cego de ver respondo:


- Sou o Faroleiro


 


- O anjo?


 


- Não, sou o exausto vivente, faroleiro de marés, velha criança e mareante, sacrossanto e pecador, perdido tanto mais que encontrado, desamor e paixão, palavra cheia e poesia.


 


- O vento diz-me:


 


- Não te reconheço, nunca te vi, mas é nesse caminho que me faço, nessa seara que me habito, nessa janela tricotada de paredão e mar que me espreito. Posso aproximar-me?


 


- Respondo que sim, que se esse aproximar encantar o mar, sim. Se aproximar for unicamente proximidade, não. A rocha negra de branca espuma já me expulsou, melhor, expulsei-me da baía enseada de barcos rotineiros e repetitivos, das mesmas partidas e chegadas, não quero mais aproximar-me e ficar só, quero aproximar-me e amar-me, e amar-te. Descubro dentro das palavras, as palavras que me fazem sentir, é como se nesta vida única vivesse duas, é como se as palavras unas se multiplicassem. Entendes-me? Por exemplo, aproximar-me tem prenhe em si amar-me e amar-te. Aproximar tem o mar próximo. Loucura é procura, e sanidade tem dentro a idade. Juventude tem tudo, e velhice tem preguiça. Entendes o que te digo?


 


- Do silêncio oiço gritado, deixar-te-ei em paz nessa ilha que inventaste, um abraço companheiro, gostei de te conhecer.

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