A saudade, o cheiro e o desejo. O medo, o frio e o amor.

 


Trauteio um assobio melodioso dentro de mim desde o acordar. Não me sai. Gosto da música, mas já estou farto. Porque raio não me é ela imune a esta “comichão cognitiva”. Como faço deste miserável acontecimento uma preocupação. Como faço de uma preocupação banal, um importante acontecimento.


 


E porque não faço eu de banalidades, coisas banais?


 


E de acontecimentos vulgares, conteúdos emotivos que valham a pena? 


 


Entre as horas em que acordo e aquelas em que adormeço, sinto antes de cada pensamento milhares de estímulos comportamentais que me cansam, que me extenuam, e uma desadequação contínua ao tempo em que existo. O meu tempo é este, é aqui e agora. O meu tampo não foi antes, nem será depois. O meu tempo é este. É este bom momento. É este mau momento. O meu tempo é este assobio que não me sai da cabeça. O meu corpo verga-se e atraiçoa-me nesta estrada, onde uma sombra me convida para explodir frases desconexas e inconsistentes. Amar é uma dádiva. Uma dádiva aprimorada e consistente, do conhecimento e aceitação do outro. Não se tem sexo com quem se ama. O sexo é uma baforada em forma de explosão não duradoura. O argumentário sensorial é uma mescla de luxúria com vontade que o desconhecimento trás. Os anéis de Saturno são, cada um deles, um estágio de conclusões que não se escoram nem se encantam nos avanços e retrocessos, assim como a cor do arco-íris nem sempre nos anima e é fértil e intensa como a protuberância. Estando uma necessidade compensada ou suprida, inteirada ou incompleta, não quer dizer que não exista uma dinâmica consumada de repetições. Repetições de comportamentos sustentados, diferentes conceitos pronunciados em análogas atitudes. Esta tremenda execução do entendimento individual excita-me mais, do que me anima. A individualidade perde-se, quando a soma das individualidades se faz em dois. E dois ou mais indivíduos são um grupo. Eu “cá não vou em grupos” o meu grupo sou eu, assim mesmo, egoísta e translúcido, por isso não me queixo, cobro, ou ataco.


 


Logo de seguida questionei-te:


 


Entendes-me?


 


Disseste-me:


 


Não é fácil, mas esforço-me. Assim como me esforcei na guerra civil que desencadeei em mim. Assim como me esforcei aquando da invasão permitida. Assim como me esforcei para entender a poesia escrita nos livros que me trouxeste na tua visita. E sabes, não é fácil. Tu não és fácil, mas é nessa dificuldade que me prendo.


 


E continuaste:


 


Sabes. Anteontem a Natália Natércia ofereceu-me noticias tuas e eu gostei. Ela é simples e prática. As coisas são como são. Sem saber como as estrelas se posicionam no céu, ela sabe que a ele pertencem, e isso é o que interessa saber, isso basta. Ela sabe que um arrepio na pele é frio, medo ou amor e isso é suficiente. Frio, medo ou amor. Como nunca tinha eu pensado nisso. Ela é sábia. Quando sinto arrepios penso logo no pior, e afinal é apenas e só, frio, medo ou amor. Sou tonta. Anteontem a Natália Natércia perguntou-me por ti e disse-me logo de seguida, e assim de uma forma feia. Mata-o. Admira-me que ainda não o tenhas feito.


 


Perguntei-lhe então:


 


Matar de matar? Matar de sangue?    


 


Ela disse-me:


 


Não. Não é esse matar de sangue. Mata-o da saudade que sentes, do desejo por que sofres e do cheiro bom que ele tem.


 


Vês o que te digo, ela é feiticeira. Ela sabe que a saudade me mata, o desejo me prende, e o teu cheiro me atordoa. Só tenho que matar em mim, o que me deixas concedido e que nem sequer é meu. A saudade, o cheiro e o desejo. Só tenho que me lembrar, que de cada vez que sentir um arrepio, é apenas medo, frio, ou amor.

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