Inversão de marcha
- Suicida-me, disseste-me.
Como te posso suicidar, se te suicidasse seria um homicida e estava a praticar um assassinato.
- Mas é o que fazes de cada vez que metes por essas veias dentro essa mistura de pó com água e ácido. Isso é assassinares-te um bocadinho de cada vez, qual é a diferença entre, eu te pedir para me suicidares, ou assassinares-te a ti próprio?
- Não é a mesma coisa e não consigo explicar isso. É muito mais complexo do que possas imaginar. Eu já estou podre. Inverti o sentido da vida. Inverti o sentido de mim próprio. Não estou na posse total da minha liberdade de escolha, o meu espírito não deixa decidir o físico. O meu físico de tão apodrecido que está corroeu a minha alma, as minhas emoções.
- Então porque não tratas o teu espírito e das tuas emoções, para salvares o teu físico?
- Preciso de tempo, um dia irei salvar, amanha talvez quem sabe, o mais tardar depois de amanhã.
Dia após dia, de adiamento em adiamento, aos poucos, arrastou-se e levou com ele quem os amava. Depois de anos sem agarrar o dia como se fosse o último ou o primeiro, apesar da generosidade da espera, esgotou-se a oportunidade, e, um dia já sem forças a morte revisitou-o acarinhando-o, beijou-lhe a testa e num ternurento abraço afectuoso, encaminhou-o em paz. Não sobreviveram recordações ou vivencias, ficaram somente dias acumulados de uma espera amontoada de agonias e escuridão.
Custa-me acreditar na euforia da legalização das drogas, quando me lembro da perigosidade desta doença.
O consumo de estupefacientes mata uma pessoa a cada três minutos, uma "tragédia global" que exige que as vítimas desta "doença prevenível" não sejam tratadas como "criminosos", afirmou hoje o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Agencia Lusa
"O vício das drogas é uma doença, não um crime. Os toxicodependentes não devem ser tratados com discriminação, mas por peritos médicos e conselheiros", disse Ban Ki-moon, na apresentação do Relatório Mundial sobre as Drogas, hoje divulgado pelo gabinete anti-narcotráfico das Nações Unidas (UNODC).
"A cada três minutos, alguém morre devido a esta doença prevenível. Estes números representam uma tragédia global", adiantou.
As crianças são particularmente vulneráveis, referiu, pois quando os seus pais são toxicodependentes aumenta a probabilidade de elas próprias consumirem drogas.
Isto expõe-nas ao risco de doenças mentais, crime e violência, além de doenças infecciosas como a SIDA e hepatite-C.
Cerca de 210 milhões de pessoas em todo o mundo, 4,8 por cento da população entre 15 e 64 anos de idade, consumiu drogas no ano passado, de acordo com o relatório.
Estes dados apontam para uma "estabilização" quer do consumo esporádico quer do consumo abusivo, de acordo com o relatório.
"Ao passo que os mercados globais para a cocaína, heroína e cannabis declinaram ou permaneceram estáveis, a produção e abuso de medicamentos opiáceos prescritos e novas drogas sintéticas subiu", sublinham os peritos da UNODC.
Na sua intervenção, Ban alertou ainda para a relação entre o narcotráfico sobre o terrorismo e movimentos armados.
Defendendo ser "essencial uma intervenção abrangente e integrada" ao fenómeno, Ban disse ter criado recentemente um grupo de trabalho para "explorar o que a ONU pode fazer mais através de operações de manutenção e consolidação de paz, actividades de desenvolvimento e trabalho de desarmamento" contra o narcotráfico.
Yuri Fedotov, director da UNODC, apontou alguns sucessos, como o declínio da produção de ópio e cocaína, mas reconheceu que as "boas notícias" são limitadas.
Um dos dados recentes mais preocupantes, afirmou, são novas substâncias não reguladas, produzidas em laboratórios em todo o mundo.
No ano passado, a agência da ONU detectou 40 novas drogas apenas no mercado europeu, algumas das quais imitam o efeito de estupefacientes tradicionais como o cannabis.
Agencia Lusa
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