Luzinha

Descalcei-me e atravessei o rio semi-vazio, empedrado de seixo enfeitado de musgo, enraizado no leito. Na outra margem sentei-me e fixei o espelho que me presenteava o outro lado de mim. Revi-me, revisitei-me, avivei-me. Há uns anos atrás, tinha iniciado ali a minha viagem. O silêncio apenas despedaçado pela água a correr, é como a fantasia do teu vestido de cetim, na tua pele a nascer. Esta paz, é de um tamanho tão desmedido, que procurei esvaziar-me de mim e encher-me deste momento. Fechei os olhos e reparei numa brisa que não tinha percebido e pensei: - fechar os olhos faz-me sentir mais, descobrir maior beleza e uma satisfação soberba, feita desta mistura natural dos elementos que o ruído me rouba e distrai. Pensei em todas as vezes que me zanguei por estar alheado, em todas as vezes que me maltratei por não ouvir o silêncio gritar dentro de mim, por todas as ocasiões em que me desgastei por não entender a escolha que a natureza nomeia em meu nome. Pensei em todas as vezes que iniciei uma luta desigual, sem compreender que as escolhas fora de mim só podem ser aceites, e que as minhas preferências serão aquelas em que poderei intervir, sem esperar que de terceiros surjam decisões. Apenas de mim posso contar. Apenas as minhas escolhas poderei anular, alterar, ou desfrutar. Do outro lado do rio ouvi vozes mas não me importei, continuei introspectivo dentro da minha vivencia. É importante saber quem sou, onde estou, para onde vou, e reconhecer que não sei exactamente o caminho, e que não existe mapa emocional que me guie. Peço apenas ao meu visceral sentir, discernimento para me deixar levar pelo meu pensamento intuitivo, e capacidade para trabalhar e saber mais das coisas. O tempo urge, é curto e rápido, mas não é traiçoeiro, dá-me exactamente aquilo que eu fizer para que ele me dê. Faz-se muito em muito tempo. Faz-se quase nada em muito tempo. Em pouco tempo faz-se muito e em muito tempo se faz nada. Não voltarei para a cidade, nem para a esquina apodrecida da espera. Ficarei vivo, nesta aldeia inventada e solícita, onde o rio empedrado de seixo, se me ajusta. Hoje, a lua vai estar longa, grande, redonda e brilhante. Tentarei abraçá-la.

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