Não é a morte que nos separa, é a falta de amor, essa divisão “inventada”

Que lugar é este?


 


Micondó respondeu ele secamente, ao perceber a minha ignorância!


 


Senti naquele momento, que a vida é para se viver e não para se evitar. E como eu sabia ter evitado mais do que vivido. Sempre a mesma merda. Responsabilidade, decisão, adiamento, e uma falta de tempo, que se esgota no tempo que me falta. O saldo ficará desequilibrado se não agir rapidamente. Quase cinquenta anos, sem sequer saber que aquele era o sitio a que chamavam Micondó. Ali, a roupa é lavada em água de rio corrente e secada em cima de pedras a olhar o céu. Há correria nesta abundância de felicidade, vista como necessidade do cimo da ignorância, que passa em carros potentes. Os petizes desnudados banham-se enquanto o cheiro a agua e sabão se misturam com o aroma dos frutos dependurados e verdes nas árvores. O lanche está á distância de uma pedra arremessada para derrube do manjar. A natureza eleva-se simbolicamente, numa simbiose harmónica de perfeição. Calor e água. Nuvens e sol. Picos e planícies. Mar, sal e fogueiras de peixe fresco. As vagas trazem os segredos simples dos laços que se criam, a cada braçada dada, nesse mar de azuis, de Micondó.


 


E a senhora de olhos fundos violeta do farol, pensei. Aquele farol que ilumina a noite no mar. Que reserva a giesta como oferta. O mar que dita os vocábulos compassados e ternos. A mulher, que conta com ardor no olhar a sua historia e a dos seus. A mãe, a avó, a mulher. Antes, os dias foram fartos de silêncio de uma boca amordaçada. Agora, as palavras fluem ensanguentadas de recordação, mas jorram calmas e límpidas como se a esperança renascida de igualdade, seja o seu exemplo. Ao longe, os palácios em ruínas rezam pela alma dos defuntos chicoteados. A bola de fogo que se deita no mar ao fim da tarde é o recomeço e não o fim. Amanha, erguer-se-á sem preguiça e cumprirá a sua missão. Terra generosa e abençoada a quem nada se poderá retirar, já que tudo nela existe. Paz, pão, crianças e velhos, e a doçura da expressão “leve-leve”.


 


Não é a morte que nos separa, é a falta de amor, essa divisão “inventada”.

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