A fingir que está tudo bem

A fingir que está tudo bem, se vive. O tempo solta-se em brados pelas ruas e as esquinas da cidade ficam translúcidas nos encontros que marcamos. As pessoas encarnam sorrisos moribundos e olhares de soslaios invernosos. Ferve-me o sangue destroçado. A árvore, plátano centenário chilreia e agita-se por dentro das suas folhas. Amei-te, amámo-nos numa mesa de pedra por debaixo dela, madrugada embriagada aquela onde fingimos estar tudo bem. A passarada à solta espiou-nos mais os vultos que vimos passar. Em Outubro existe na lua nova, nos montes, nos rios, nas nuvens e no mar, o Outono. O Outono é a decadência e o declínio, o ocaso e o decrescimento. Os amantes do conhecimento apelidam-se de filósofos, loucos ou estranhos. Os loucos, excessivos ou arrebatados. Os estranhos, desusados ou misteriosos. Os filósofos excêntricos e lunáticos, ou mesmo indivíduos portadores de défice cognitivo. Tanta mentira, prenhe de tanta verdade. Os amantes por si só, carregam dentro do peito um mar incendiado de emoção, um pranto incorrigível, e uma enxurrada de incertezas transformacionais, como o fogo do olhar primeiro. Aquele olhar. Aquele abraço. Aquela pose inundada de ti, a fingir que está tudo bem.

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