Eu sou de viver, não sou de existir
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Estás sozinho?
Sim, estou sempre, respondi. Mesmo acompanhado estou só. A minha cabeça traiu o meu coração. Já estou esbatido deste sentir, o fogo percorre-me a cara, sinto-me quente. Empedradas, as minhas mãos estão calejadas. Presumo que o amanhã será como anteontem. Envelheço por dentro mais rapidamente que por fora. Também é certo que jovial me encontro, perante os demais da minha geração. Mesmo não vivendo de acordo com a fase em que me encontro, vivo. Eu sou de viver, não sou de existir. Existir, existe todo a gente. Viver, só vive quem escolhe. Há “coisas” que são autênticas montanhas russas na minha cabeça. “Coisas” vertiginosas. “Coisas” descabidas e sem sentido. Um dia tive um amigo que fugiu. Fugiu das noitadas dos amigos. Um dia sem sentido levaram-lhe os quadros por dinheiro da sua arte, quando apenas companhia seria necessário. Um dia, os meus amigos do meu amigo, pactuaram com a sua misarabilidade interior, raiada de vulnerabilidade, vertendo anti-discursos, acenados com sins desassertivos. Um dia percebi a sua fuga feita de entrega, era o caminho mais fácil e melhor. Antes lá do que cá, acredito que meditou. Um dia afastei-me e foi por aí que tudo começou. Um dia, senti-me abandonado sem saber porquê. Um dia, as minhas palavras tornaram-se aborrecidas. Um dia, fiz-me lembrar que “quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar”. Um dia, o meu amigo voltou e como já não é social visitá-lo, está com os companheiros que escolheu, numa sala pequena, sem nada, sem ninguém, apenas o acompanham as suas escolhas. Estranho, quando nos sentimos únicos e abençoados pelo bom senso, pela coerência, e conseguimos acompanhar-nos mesmo sós.
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