Desperdício
Desperdício é o suborno que a mente faz ao coração. O medo infundado a que cedo é tão-somente o ego que se dilacera numa estúpida e sem sentido grandiosidade. É a fuga inalterada e constante ao desconhecido, são as hipóteses adiadas e os beijos abraçados de plenitude e paz a que renego. Desperdício. Esse tempo que não se retêm, que se funde com o passado e não se glorifica no presente. O futuro é irrepetível porque é o passado no presente. Desperdício, esse vento de sul, que me empurra de mim antes de se separar de mim também. Não há ninguém que me queira tanto bem e mal quanto eu mesmo. Esta forma sádica a que por vezes me entrego, feita de sonhos simples e pensamentos elaborados tão distantes da minha própria imagem e essência, são o meu próprio inferno. O abraço adiado por falta de coragem ou a mão dada por falta de arrojo e bravura. Perco-me no turbilhão a que chamo complexidade mais do que complicação. Sou mais complexo do que complicado. Por vezes grávido de lucidez, travo comigo batalhas que se erguem de barreiras intransponíveis, de olhares envergonhados de desejo e de paixão fervente e humanizada. Ao fugir do dolo que é viver, perco-me da alegria que é existir. Semeio fartas marés de esperança, sonhando que nela desagúem lagos calmos e cristalinos enfeitados de pinheiros pontiagudos e barcos que pretendo habitar e possuir, e a eles chamar-lhes lar. Desperdício é sonhar e não fazer, não fazer subornado pela razão estúpida e traiçoeira do medo inexistente pela antecipação do resultado desconhecido.
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