Café com sol ao acordar
Sentado no campo a perder de vista deixo o olhar do outro lado da fronteira. As mãos construídas pelos dedos grossos demonstram trabalho, perseverança, entreajuda e espirito de sacrifício. De, quando em vez, espelham um certo espirito visionário. O denso cheio a pinheiros alimenta os meus sonhos. As estradas da minha infância mantem-se até hoje intactas. Os meus amigos que não o eram, foram naturalmente substituídos ou simplesmente perdidos. Perdidos porque não se substituem amigos. Isso seria comparar ou minimizar os novos amigos, dar-lhes uma igualha que jamais poderá ser acrescentada. Assim como os que se foram, nunca se aniquilará o património conjunto, a obra conjuntural, confidente e emocional por excelência existente. Se já o foi, já se viveu, continuará vivo e torna-se em história.
Não existe passado na amizade, ela é viva, mesmo que no presente. Os traçados de vida podem com alguma naturalidade tornarem-se divergentes, mas isso não a torna efémera para sempre, nem por nunca ser, definitiva.
Calculo as horas que me restam deste dia pelo balanço do sol. Está a meio do dia a felicidade, reconheço-a. Os cafés não me sabem todos desiguais. Uns sabem-me a rapidamente, outros, demoradamente a paz. Cheira-me a banho tomado pela casa toda. Gosto deste cheiro. Os cheiros adivinham a minha forma visceral de sentir. A minha emoção torna os cheiros mais ácidos e agudos, torna-os impossíveis de não serem contidos, compreendidos, envolvidos e desfrutados. O cheiro da tua pele é como a amizade, nunca será replicado, particularmente jamais sairá da minha tez
agreste. O pó que reparo que se levanta da terra ao meu pisar, é suave e lento, ou espezinhado e forte, depende do meu cuidado comigo mesmo, da forma como me prendo ou me solto. Eu vivo sem alguém, não consigo viver sem ninguém. As pessoas são as minhas partículas de um deus não concebido. Todas as pessoas. O ensinamento experiencial de vida ensinou-me a quebrar as verdades inexistentes e absolutas. Ensinou-me a dar tempo às horas e aos segundos minutos, indicou-me a usar este tempo único e possível de usufruir, que é o agora mesmo. O já. O imediatamente. O presente.
Jamais viverei o que foi, embora o guarde. Jamais viverei o que não sei sequer se existirei para usar. Vergo-me a todos os pensadores. A quem gosta de pensar. Pensar é existir. Pensar é decidir.
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