Duas, três ou quatro assoalhadas ?

As tábuas de soalho de onde deriva o conceito e expressão assoalhadas já não o são. Deveriam agora as casas denominaram-se de duas, três ou quatro aparquetadas, ou aparquetadas flutuantes, já que deixou de ranger às nossas passadas o soalho e passou a segurar-nos os passos o parquet, posteriormente flutuante. As escadas de soalho deixaram de se desfazer languidamente rangidas. Os quartos assoalhados de tacos matematicamente enviesados deixaram de cheirar a cera, e de se poder neles escorregar com na geada. Antes, começava a fazer amor no chão encerado junto à janela e acabava junto da porta. Não havia tracção e deixávamos ir escorregando os nossos corpos no encerado do chão assoalhado. Contava pelo ranger dos degraus a altura de a chave entrar na fechadura e da porta se abrir. Podia assim, preparar uma recepção pela mnemónica construída. Pela contagem dos sons sabia se era a minha porta que se ia abrir e se tu romperias exausta nos meus braços que te depositavam no sofá de molas partidas do início das nossas vidas. As bisnagas de cera amarela deliciavam-me com o seu cheiro limpo e aromatizado, quase que me apetecia barrar o pão desconstruído em torradas quentes e domingueiras. Já não existem casas assim, embora apregoadas como assoalhadas. Agora são-no outras coisas qualquer. Menos familiares, apetecíveis e pessoais. Sem espirito de pertença e vizinhança.

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