Num dia só, existem dois de mim.

No resquício de uma parte de mim que foi passado e presente se mantem, estes dias ultrapassados, revisitei-me por decisão própria e fui revisitado sem coerente escolha. Fui-o, pelos melhores e piores motivos de mim mesmo enquanto ser humano. Existem em mim tal como os dias, duas distintas partes. Num dia existem dois. Um das sete às dezanove e outro das dezanove às duas da manhã. Na minha vida é igual e a história repete-se sempre. Uma foi escuridão, a outra, incandescência e luz. Tal como nos dias, o espirito de pertença está e não está, simetricamente como as ondas que habitam no mar. Revisitar-me é, ter-me em distintas partes iguais do meu eu sôfrego e calmo, apaixonado e medroso, lucido e obsessivo, alegre e melancólico, saco de lagrimas por rebentar e estoiradas trovoadas incontornáveis de ternura. Ver-me a mim próprio é ver-me para além de mim, nos outros. Tenho dentro de mim tantos segredos, quiçá interessantes. Já não falo de segredos penosos e sacrilégios, esses foram-se aos poucos e diluíram-se depositados nas amizades. Falo de segredos estimulantes que guardo. Segredos de encher a alma, pensamentos de amor, coração vivo de dor ausente, misticismo, e filosóficas metamorfoses renovadas. Revelar-me seria porém, expor o que em mim falta expor. Seria não saber mais de mim próprio. Seria expor esta imagem erguida por um muro, onde só lanço a escada a quem eu escolher. Nestes momentos escuto-me, ansioso de me descarregar. Sei que só eu me conheço e que a meu lado o burburinho não é audível. Escondo-me no sorriso e no humor, na despresunção, e na necessidade crassa de estar comigo, como um ser indivisível, ambíguo e longínquo.

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