Pouco mais … ou muito mais talvez….
Preencho uma ficha e espero cautelosamente o aguardado momento. A primavera já tinha abençoado o verão e partira. Dentro do ti jorravam perolas dos teus olhos de cada vez que muda, me olhavas. Finalmente ressoou o teu nome e partiste. Oiço os carris do comboio onde partiste até hoje. Um som férreo e duro tal como ficou o meu coração. Esperançado, até hoje espero a carta que não escreveste. Passado o verão de oitenta e cinco dissipei de mim vários mistérios. Todos os mistérios.
- Primeiro, descobri que detestava os meus pensamentos, que como vagões infligiam em mim um ruído insuportável.
- Depois, acedi a mim próprio como um ser diferenciado.
- Depois senti que não pertencia.
- Mais tarde vislumbrei o inferno e ardi nele.
- Antes percebera que a solidão me magoava e aliviava.
- Que as pessoas me assustavam e alegravam.
- Que o sol não era bem-vindo quando se abatia sobre mim.
- Que a lua me protegia.
- Tomei remédios que não me remediaram.
- Mudei de mezinhas.
- De lugar.
- De família.
Mas…mas nunca consegui mudar de mim o meu próprio lugar.
A minha identidade ou sexo.
Desta incoerência incompatível com a felicidade restou-me anos a fio ser quem não era. Ser quem não fui, verificar o incumprimento de promessas diárias, de ver pastosa a minha gosma pegar-se a quem me queria bem, que já não era ninguém.
Quando se chega a um dia, o dia em que na vida, a morte para quem nos ama é a nossa libertação, apenas nos resta ela própria, apenas ela própria nos seduz cobardemente, ou resta-nos o milagre desacreditado, que é o próprio milagre em si.
Quando as sombras quase esquizofrénicas nos seduzem e o pensamento morto de tão obcecado nos guia, resta-nos a coragem longínqua, inacessível e desconhecida do poder da reconstrução.
Como posso voltar a ser?
Como posso voltar a ser?
Esta foi a substituição da azáfama assustadora que me dominou desde o dia em que parti de mim, ate ao dia em que me cheguei em descoberta. Estações e apeadeiros podres me tiveram e consumiram parte de mim, mas não me detiveram. Finalmente decidi. Decidi voar. Deixei que o tempo se resolvesse em mim e dispus-me a aceitar as partículas, que se me foram acrescentando em crescendo às minha decisões.
Fiquei limpo e pouco mais … ou muito mais talvez….
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