Antes d´abril vivo
O restolho molhado e macio desenfreou os nossos limites. Entrámos dentro de nós próprios, cada um no outro. Setembro, talvez fosse esse o mês. Por lá vagueamos em juras prometidas, confinadas em desvario. O mês era vizinho e anunciado pela torre da igreja nas suas badaladas. A zona raiada das nossas faces era raiana, era a fronteira do nosso querer e brilho. Comunicávamos sem as palavras nos abastecerem ou serem esculpidas. Os nossos olhares, ora fugidios, ora extasiados eram clarão em noite escura. Tantas as noites que as nossas mãos cheias do nosso corpo nos sufocaram. A música que delicerámos, descompôs-nos e construiu-nos. O José Fandango viu-nos nus de roupa, com as nossas bocas unidas junto ao ribeiro, o louco. Como era, aos olhos do mundo louco, dividimos a nossa loucura com ele, sabendo que ninguém o levaria a sério e o nosso amor nascente e brotado, ficou para sempre entre nós, eu tu e o José. Ficou igualmente em sigilo, sabermos na nossa sapiência que, nenhum de nós é louco. A aldeia agora desumanizada, sem gente e imóvel, mantêm no restolho húmido os nossos corpos. A ti chamou-te a França, a mim a capital. Nenhuma mulher jamais, amei como a ti.
- Em quantas noites de Tejo, verti estas saudades na corrente duradoura das cheias invernosas?
- Quantas vezes, Paco de Lúcia me trouxe até ti?
- Quantas madrugadas foram as que fingi não existir, e em quantas bebedeiras ensolaradas pelo despertar da manhã, me refugiei?
Tantas e lestas horas desconstruí o teu nome de honor, Leonor. Trocaria todas estas rugas pelo teu ombro. Toda esta sobranceira tristeza por esse sorriso de luz. Toda esta saudade deprimida de mim próprio, por saber que no teu pensamento existo. A vida completa-se, quando deveria principiar-se. Malfadado momento pobre de pão e fascismo, que de ti me levou de assalto por montes de carabineiros ausentes, do lado de lá da fronteira. Desdita e ignóbil religião que cegou de pobreza aquela aldeia, que de mim te afastou. Hoje rico, pobre me sinto, e tão pobre me senti sempre sem fortuna avaliada, mesmo somada de números e vontades desatendidas. Tu foste, és e serás Leonor, a minha fortuna. Não fugirei de mais nada tendo eu tudo em mim. Ensinou-me isto, o amor.
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