Auto incluída, inclusão vivente

Com medo ninguém escreve. Se não se arrisca no silêncio branco de uma folha de papel, onde se pode fazer das palavras gritos e gemidos à dor, qual será outro, o momento, de coragem?


 


- Poderia aqui confirmar o meu pai ou desconfirmar a minha mãe. Poderia ressuscitar alguém ou matar um outro alguém, mas tudo se manteria inalterado, igual, decomposto, se a coragem inalterada se mantivesse. Quem não tem coragem não escreve. Não escreve a descoberta improfícua, escanzelada, insana, magra, arrogante, e vendida, que se agoniza no descrever da essência humana, auto incluída.


 


- Quem não se debate, não se descobre. Quem não foge, não escreve, e a poesia não é amor. São farpas ensanguentadas de quem vislumbra luz no pesar e claridade na penumbra. Quem não caminha, retrocede. Os versos que te dedico não é poesia, é alegria vingada de quietude. Não os lerás, e, assim, jamais saberás o timbre dos meus silêncios ou anseios, das minhas enxugadas lagrimas, da angústia da minha metade passada de vida.


 


- Dedilho uma música que construí e que ninguém igualmente ouvirá. Começam a habitar a minha vida muitas palavras não ouvidas, muitas músicas não cantadas, muitas horas desabitadas, muitas vezes, ninguém. Ninguém é a minha companhia. Sem medo componho, destruo, reconstruo, descubro, esta miserabilíssima essência improfícua, escanzelada, insana, magra, arrogante, vendida, agonizada e gloriosa … Auto incluída, inclusão vivente.

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