Cheiro húmido
Este cheiro húmido invade-me desprevenido. A intuição desalvorada e prenha de promessas fantasiosas e obscenas, auto engravida-me de esperança, numa fé irreconhecível. O pó do pátio em redondel fez as minhas tardes abonadas de correrias coloridas de castanho, nos mergulhos cristalinos da ribeira. A velha arvore breve e redonda, esconde até hoje os beijos soltos da minha boca desencorajada. Foram beijos de pensamento. Com a ideia te desabotoei, tantas e tantas vezes o vestido. Atrasado pela espera, antecipei o futuro, e mais além me detive, sustentando a resistência desdita e malograda da minha fantasia pelo teu corpo. Oiço raízes de pessoas declamadas pela inocência de uma criança gritando fuga, num bairro amaldiçoado uns dias e benzido outros tantos. Castro-me no âmago da minha alma, deturpando uma frágil e estúpida linha a que chamo insignificantemente felicidade. Esvaziada de conteúdo, o significado cresce harmonizado apenas com o sonho. De real nada existe, para além das estações. Depois da fresquidão outonal, solta-se o Inverno embaciado. Antes, o verão seguira-se à primavera. Nesta metamorfose metafísica visitei o céu e o inferno, e, após cada estação depositei na terra lavrada pelo arado, as minhas cicatrizes emocionais saradas de uma só vez, com abraços navegados. Aos domingos a solidão era maior. Difícil de entender este sítio onde me depositaram. Invejei o motor roufenho de uma mota que rasgava a madrugada. Invejei risos e lágrimas, prosas e poesias. Invejei até a morte. A serra adornada de ruídos, foi onde, noite após noite, acordado, encorajei o que me restou e prendeu. Voltei ao pátio que os anos desconfiguraram. Voltei novo de mais velho. Mais idoso de juventude. Mais vivo de anos e decisão. Menos sozinho de companhia. O átrio continua empoeirado, tagarelado pela mesma passarada. Os velhos são os mesmos revezados, e as crianças idênticas substituídas, e eu, grávido de esperança, numa fé reconhecível deste cheiro húmido e desprevenido.
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