O sítio onde habito, o sítio onde me habito

Brilhante, ficou o odor dos teus passos. O teu andar deixa uma fragrância à tua passagem. Num casario velho e estafado, quase ruinoso e decadente, é o sítio onde habito, onde me habito. Os degraus velhos em que subo são a metamorfose do meu corpo. Comparo duas fotos reais díspares no tempo. Uma a duas cores a que chamamos preto e branco, como se o preto e o branco não fossem igualmente cores. Uma a cores impressa e ainda outra não impressa, abarcada de nova tecnologia. Em todas me revejo e em nenhuma me excluo. Excluído afinal sou, das cores que enfeitam o arco-íris. Antes o tempo fosse, searas recomeçadas de sementeira e colheita. Antes eu fosse, pronúncio e atitude, projecto e obra executada. De cada vez que alcancei, antes sonhei. Em todos os momentos fui acreditar, em todas as aldeias pernoitadas fui eu, os meus dias. Em mais de mil dias de ausência me presenciei. Chilreio mentalmente uma melodia onde me acordo e balanço. Sinto renegadas as minhas mãos, num confronto constante e diário com a minha mente. Não sei afinal se existo em cada madrugada de nevoeiro contestada. Canso-me com o vazio da inquietação, fortaleço-me com o preenchimento da exaustão. Esta madrugada passada, trocá-la-ia sem hesitar por uma parte de mim próprio, não teria sido necessário o meu “eu todo”, teria sido bastante em mim, parte de mim exclusivo. Saudades de ti, filha menor. Saudades do teu berço e do teu sono velado. Do teu sorriso de sono. Dessa expressão confrontadora de protecção e paternidade. Escutei tamanho silêncio e fiquei. Tenho nas minhas veias, sangue corrido de tremor e tempestade. Tenho tatuado em algumas, a morte numa correria para a vida. Tenho lembranças visíveis que me prendem. Injecto vida aos pedaços, conhecimento e poesia. Acrescento menos abraços do que a felicidade me exige. Sobeja-me tempo que reclamo e adultero, em preguiça e acção.


 


Num casario velho e estafado, quase ruinoso e decadente, é o sítio onde habito, onde me habito.

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