Os poetas que sobraram
Os habitantes desta cidade murmuram sonhos. Murmuram anseios para que os filhos regressem vivos dessa loucura fascista, de se achar que se colonizam povos, para lhes devolver o que quer que seja. Os poetas desta cidade arriscaram a cantar versos sobre a liberdade, fraternidade e igualdade. Os analfabetos desta cidade, um dia, aprenderam a ler, chamaram-lhe aulas para adultos, nocturnas. As prisões desta cidade abriram-se num sem sentido de entendimento, acerca da estranheza que foi a liberdade, ou da desigualdade de todos terem o pão da igualdade. As portas desta cidade abriram-se aos pares e o refrão da canção cantava cuidadosamente, “que a liberdade está a passar por aqui”, “num depois do adeus”, num “adeus tristeza até depois”, e num “agora o povo unido jamais será vencido”. Os anos foram relativizando as conquistas de Abril a meio caminho de Maio. Nesta semana de intervalo, entre uma conquista e o direito aos trabalhadores de se associarem, reunirem e evocarem a liberdade, já nada vale, tudo apodrece nas mãos de uma “coisa” a que chamam “mercados financeiros” e dos seus lacaios ordeiros e vendidos. Já nada ou pouco importa, já não se sabe, lembra, dignifica, ou preserva a luta de tantos e tantos homens. Tornou-se isso num idealismo faccioso e falacioso, interessa passar isso, e a “coisa” tem passado. A liberdade precisa de voltar a “passar por aqui”, por esta surda e cega ignorância, por esta desfaçatez conjugada de embrutecimento de um povo. Este Abril esvaziou-se e o Maio antigo esmoreceu subjugado. Ainda resistem uns apontados e “fora de moda”, que recordam Abril e a sua poesia. Viva o 25 Abril e o 1º de Maio. Não é uma festa “dos comunistas”, como convém dizer, para catalogar, excluir ou julgar. É uma dádiva de respeito a que me vergo e relembro, vivente e pensante, emocionalmente presente como me quero na minha existência sensorial. Do sítio de onde em vim, trouxeram-me os ventos e as mares. De diferenças me igualo. Beijo-te Liberdade. Abraço poder reunir-me sem me esperar uma prisão, saúda-me poder ir ao teatro e haver livros para ler, música para ouvir e referências para me inspirar. Não podendo mudar, posso transmitir. Transmiti à minha descendência a importância vital de que tudo existe, porque tudo mudou, e acrescentei: não te esqueças que por nós, por mim, por ti, estiveram presos por amar, muitos dos nossos poetas que nos devolveram à liberdade … e nós somos, parte dos poetas que sobraram.
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