Entre o sorriso e a lágrima
Este soberbo espaço entre o sorriso e a lágrima não é néscio, não é ridículo ou obtuso. Este soberbo espaço é, vida viva. Já fui muito mais velho do que sou hoje. O tempo não é infalivelmente idade, não é fatalmente velhice, desastrosamente menopausa, ou inevitavelmente andropausa. Isso é apenas o que deriva num desgovernado e mentiroso delírio, na cabeça de quem se recusa a existir no tempo, como vida. Percepciono fugazes entradas de existência em mim. Num mesmo dia ocorrem-me nas veias, rios imensos e vorazes, correntes vigorosas, e vontades possantes. Eu? Eu deixo-me ir. Não adianta o desgaste da resistência que é perder-me a mim mesmo. Causas são causas, não passam de causas, eu sou muito mais, ideais. Solto-me sedento do que acredito. Aceito uma evadida fé que troquei por perseverança, trabalho, descontextualização e verdade. Não me traio, sou-me fiel, constante e coerente. Não represento ou falo de saudades por agradabilidade, não acho que possa ter o que não me pertence, ou ser de quem não pertenço. Pertenço-me antes de pertencer. Gosto de verbos. Conjungo o alento em dias e desenho pedaços harmoniosos de ser, que às vezes sou, outras vezes não. O resultado de ser não me pertence, pertencem-me apenas sonhos enfatizados e queridos, de muito querer. Na verdade já fui mais antigo com menos idade, e, dentro de mim, informal e a quem escolho, exponho de mim a música que componho e os poemas que escrevo, como se a vida sempre me tivesse sido progenitora.
Este soberbo espaço entre o sorriso e a lágrima não é néscio, não é ridículo ou obtuso.
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