Jasmim em cachos de olhos negros

O céu perfumado de jasmim larga cachos de perfumes, uns mais intensos, outros adocicados, outros distintos e agros, suaves e intensos, imaculados e revoltosos, inocentes. A eternidade dura um momento. Os momentos eternos são aqueles que não se destronam pela substituição dentro de mim. Nunca ninguém partiu, depois de em mim ter existido. Sobranceiro, recolho-me refugiado no meu sentir uno, nos meus sentires plurais. Tenho saudades do mar, do mar de abundância, mexido, de cheiro vigoroso, robusto, encantado, entardecido pelo pôr-do-sol, desperto pelo nascer da manhã. O mar que esconde o sol de nevoeiro, e a maresia encoberta no seu regaço cinzento. O mar dos pescadores e das varinas. O mar das gaivotas salgadas. O mar de alma desprendida a perder de vista. As saudades não se matam, as saudades castram-se, semeiam-se, muito mais do que se colhem. A saudade é um famigerado substantivo qualificativo de um sentimento desqualificado, tóxico, de um veneno sem profilaxia apropriada ou prática de resultado, é anti profiláctico, sem virgindade resistente e conspurcadamente poluente. O sótão da minha infância tinha vasos com flores. Uma camilha redonda. Amigos. Uma escada de madeira. Os primeiros e inocentes pecados. Beijos. Música, musicas, livros, uma viola, presença e solidão. Um mundo simples visto com os olhos de hoje, um mundo secreto ajustando aos olhos da época. Este meu sítio, criado e cuidado, remete-me à fantasia real e relativizada do tempo, e, torna-se hoje sim, uma fantasia e vontade impossível de retrocesso, sem abrir mão do conhecimento. Impraticável e desconexa esta inexequível firmeza da saudade, de um mar e de um céu, perfumado de jasmim … em cachos de olhos negros.

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