Poetas ou naufragos?

Resumindo: um poeta não escreve. Um poeta sente necessidade de deixar sair as suas aflições feitas palavra, ser fluído como o líbido sexual, representado por algo da força e significado de um orgasmo que, o arrebata ou inquieta. Descomandado por um sonho não crente ou entendível, pela realidade, pela paixão, por nada e por tudo, pelo desamor, talvez mais do que o amor, o poeta é uma mistura de pólenes raros e comuns.


 


O poeta, não tem posição para dormir enquanto não naufragar o seu incómodo no seu porto do mundo. Os versos de um poeta são um momento. São o raio antes do trovão, são segundos, deslocação, remoção. O trovão é, o efeito das suas eloquentes e imperceptíveis interpretações dele mesmo, no seu id, ego e alter-ego espelhado, abrangente, descoincidente às vorazes sanguessugas do entendimento linear como se quer, mas disruptivo como é.


 


Um poeta não é a poesia. A poesia são os poetas, todos.


 


Um poeta é quase sempre visto como um lírico sonhador que vive num mundo irreal?


 


Mera fantasia esta, de quem quer entender a poesia antes do poeta. Um poeta jamais saberá se o é, foi ou será, no máximo, o estado mais próximo dessa certeza é a dúvida. O entendimento de si próprio como ser isolado do sentir, é inexistente, e, se se torna altruísta de fazer bem, é um mero e soturno acaso.


 


O sonho pode-se materializar pela força do desejo?


 


Sim, não, talvez, concerteza, algures, provavelmente, quiçá. A força de acreditar não é uníssona ou bilateral. A força do trabalho, sim. A força do desejo, não. O tango é seduzido pela nota seguinte à sétima do acorde, pelo olhar, é encantado pela diminuta da escala, pela voluptuosidade da divisão do silêncio é nota maior, pelo espaço, é encantamento é menor.


 


As mãos dadas são adúlteras e desentendidas, depois de semanas dadas são doadas. É a dança do conjunto dos elementos que nos forja: ar, fogo, terra, agua.


 


Ar, pela descrença assimétrica do céu. Fogo, pelo metafórico inferno e pecado praticado na vida. Terra, no desenhado das raízes e crepúsculos vigentes, por um conto de adamastor convertido em boa esperança, depois de dobrado o bojador. Agua, pela imensidão dos terços dela, representada no planeta e metabolismo humano.


 


Ser poeta não é ser sonho. Ser sonho sim, é ser poeta. A poesia é como a matemática, o quadrado é sempre a raiz elevada dela própria. Tudo o que alcançámos antes foi sonhado pragmaticamente. O milagre do alcance do sonho está no conseguimento do que somos, sem sonharmos na metamorfose da quimera. A magia está no alcance da superação. Está na ressurreição. Está na desambição. Está no agradecimento.

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