Desmedido feitiço suave da alma
Desmedido feitiço suave da alma.
A casa de semblante frio de pedra milenar remete-me ao cheiro quente da lenha ardida em invernos ternos de luz ténue, e do tempo recorrido lentamente. No inicio da rua, logo no inicio, um tanque mantém embranquecidos os lençóis onde me deito. A cada noite me espero e invento um novo dia. Imóvel, o holocausto civilizacional, tornou este lugar de prados e vales de cor, no espaço mais perto do céu reconhecido por mim.
Renuncio à loucura sôfrega de estar sem me encontrar, de ser sem me apresentar, de continuar sem me verter, de sobreviver sem me reinventar. Desconexo caminho sem saber ou preocupar. Apenas respiro a cada passo as memórias que carrego. Hoje, o sol dá-me alimento. A terra seca de fendas abertas, demonstra-me as rugas da idade e do conhecimento que possui. O solo abre-se dos segredos que guarda, do gozo que tem no silêncio, da loucura que satisfaz a demência, no regozijo da incompreensão. Apenas alguns lêem as entrelinhas dos sinais expressos na natureza, escassamente outros acreditam num deus secreto e selvagem, todos os seres se revelam na não vontade profetizada.
Tenho saudades tuas e do castelo que habitas. Dos pequenos seios rijos e alvos, do teu pequeno tamanho, e do tamanho da altura que tens, das tuas mãos adivinhas do meu prazer, e dos teus lábios rosa nos meus, do teu arfar lânguido e desconcertante, do teu prazer imenso, das tuas intenções dadas com o olhar, da normalidade com que aceitas o meu distorcido método e ordem, sofismo e retórica. Acredito que nas brechas gretadas na terra, existes. Que no céu colado no mar, resistes. Que na sombria resistência, te invades. Que no amanhecer, vives e na existência sobrevives.
Desmedido este feitiço suave de alma elevado.
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