Ventre de mel

Sabe a mel o cheiro fresco destas manhãs. Estes últimos amanhecimentos são-me recordados pela ausência. Sabe-me a fel cada noite apartada. Na junção das estações, enquanto uma não acaba definitivamente e a outra decisivamente não recomeça, junto-me às folhas que amaciam o caminho, e, respiro fresco o ar que me embriaga. Desnudado, de cada vez que em desabafo suspiro, oiço roufenho o meu peito despertencente do meu corpo. Cego, trago no ventre o vento que me sustem. Não tive mãe pertencente ou sinto pertença de uma mãe. Construí a mãe no pai da minha filha. Elevo o sangue juntando corações que se quedam no horizonte inquieto. Turbulenta, a vida passa-me numa rajada de ventania, dilacerando-me o corpo presença de traição e amor injustificado. Juro vingança aos céus inexistentes de deus, pela ensanguentada juventude na mórbida vontade de estar vivo. Anos depois de “amorfinado” me encantar, canto em acordes inventados, uma canção que dedico às flores. Sorrio em tons suaves de violeta o regresso, saúdo a existência da liberdade e os pedaços de florestas amortalhados em mim. Desencanto encantamento em cada canto de mim, e, sublime vejo a vida de beijoqueiros namorados soltar-se em lírios perfumados, desafiando-me para além dos anos. A idade não tem tempo e o tempo não tem idade. Cabem mil anos numa vida e tempo nenhum na permanência arrastada dos dias. O cheiro a mel nesta terra adormecida entontece-me e purifica-me. O odor a semi-geada é cerebral. Sinto-o do ano que não passou, sinto-o do ano que ficou na minha alma. Os anos fedem iguais, em estações diferentes. Os anos, as estações, e os cheiros, são como eu. Reinventam-se nas quimeras azuis do céu.

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