Dias não são dias

Dia da felicidade, do pai, da mãe, do natal, da pascoa, mais do beijo e da amizade e do trabalhador e da revolução e não sei quantos mais dias de não sei o quê, porque na verdade a banalização das datas destes, não é mais do que a insignificância que elas representam. Não há pachorra para tanta celebração de nada. Todos são unânimes no esvaziamento de sentido.





 


Assinalar para quê e o quê?



 


Bem sei que a Grândola se vende bem outra vez, que os poetas regressaram às ruas nas bocas dos indignados, que a palavra é uma arma que faz a revolução.



 


Mas alguma vez deixou de o ser?


 


A Força do poder de compra trás e leva da mente dos que se aglomeram a importância relativa da luta. A luta baixou a guarda e é o que se vê. Sempre existiram manifestações, estavam eram vazias, vazias de gente vazia que agora acordou e as enche de um significado que não tem. A luta tem em si própria o significado de luta, num país com cinquenta anos de luta, a luta não é nova, a luta é experiente, madura, leal, eterna e justa. A luta não pode existir porque agora é precisa. A luta sempre foi precisa e quando mais foi, ninguém lá estava, ou estavam os do costume, os apontados, os que agora não estão, porque não precisam de estar, por sempre lá terem estado.


 


Abril está aí novamente, o ano passado não se celebrou e este ano não se celebrará. Abril não sai às ruas pelos motivos que tem saído. Abril é o episódio mais significativo do seculo XX no nosso País e considerámos (por votação nacional) a figura do século, o ditador. Que memória colectiva nos assiste afinal? Quantos destas manifestações modernas votaram nele, neles, nos que nos têm governado? Quantos adormeceram? Quantos acordaram agora? Agora o tempo urge e esgota-se… agora há que penar … é o preço da distracção da ignorância da poesia nas ruas, nos muros, nas palavras e nas alma.


 


Na madrugada de abril as gargantas estavam embriagadas de uma guerra sem sentido. Estavam cautelosamente a chorar a morte dos seus filhos. As prisões eram férteis em ideais dos que estavam presos pelo pensamento. O pensamento foi o que fez a liberdade bramir, que nos despojou de uma igreja castradora, sentada na mesma cadeira salazarenta.


 


O que nos igualou aos poucos ao direito a saber ler e escrever? De um salario justo? De o direito à igualdade e mais do que tudo, de reconhecer na palavra a força que mata a escuridão? Foram os do costume, os que não estão agora nas manifestações, porque pertencem a elas...


 


A palavra é uma arma que não mata,


É uma arma que ama,


Que alimenta e desengana.


 


A palavra feita de paixão,


É comida, sopa e pão,


Castração da desilusão.


 


A palavra tem o dever de ser pronunciada,


É possível e praticável,


Bendita e admirável.


 


A palavra não a leva o vento,


Se for saída de dentro,


Como um ventre segurado nas mãos da verdade.

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