Frescos singulares

Frescos singulares desprendem-se das árvores vazias. Um homem senta-se de frente para a sua sombra e respira. Deixa ali mesmo o cansaço como se um afago ou um abraço lhe tivesse sido dado. As raízes suportam um e outro inverno e são elas que sustentam a vida. As árvores não acreditam no pecado nem no inferno. As árvores são apaixonadas e constantes.


 


Ontem, observei uma que estava desnudada como se, se tivesse a despedir, e o outono a estivesse a possuir e embelezar. Sorria e dançava. Sorria de um castanho posto nos lábios encantado de luz. Dançava de corpo solto e peito breve e firme. Um banco de pedra fria e antiga, pequeno e atarracado, permanecia submisso na meia-luz do encantamento da  sua penumbra.


 


Nas pedras também nascem flores, como no jardim da vida nascem seixos. Nos cabelos esvoaçados das fragâncias elixadas, junta-se um bando de passarada agitado e desconforme, vão rumo a sul num céu de migração. É a época de partir. É sempre época de partir. É sempre época de ficar. Época é, uma temporada de felicidade desnudada, assim esteja o céu de nuvens negras descarregado.


 


Eu, ali mesmo, mísero e estonteado, inerte fiz parte e obtuso comtemplei, o som terno das asas que se desagregam no rumo que compreendem. Como sempre, só uma parte perpétua de mim, a incessante, se apazigou. A outra, a insatisfeita, ficou presa na debandada que não usou mitigar o coração.


 


Vejo desenhado no céu as estrelas. Pouso a minha face na mão e encosto-me ao meu queixo. Descanso, contesto, clamo, brado e silencio. Gemo silêncio nos olhos.


 


Viajo e vou em mim, para um sítio que desconheço.


 


Necessito simplesmente de continuar a sentir os frescos singulares que se desprendem das árvores vazias… desentendidos de amanhãs.

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