O pecado, a mentira e a presença, não se dão
Habita-me um “eu” não visível que cuida de mim. Um “eu” que me sinaliza, desperta, previne e informa. Um “eu” que me diz sim e não, como um rio alvoraçado que não se pode desviar do seu caminho e do leito que o absorve. Um “eu” cuidador, amigo, terno, leal, cruel, implacável, tonto, lucido, sábio, ignorante, fugidio e presente.
De cada vez que me adio faleço, “ele”, ressuscita-me. A pressa que os dias e a vida possuem é essa mesma, falecer. A velocidade do tempo nada acrescenta, ao contrário, retira. O pensamento ágil e veloz, ao invés, adiciona e acumula.
Pensar, é o que o meu “eu” que me cuida desenvolve. Sentir, é o que o meu “eu” que me cuida faz, “eles” são residentes e permanentes.
Sou o representante dos dois mascarado e travestido de um. Um que não sente, o outro que não decide. Um está para mim como deus está para os que crêem. Outro está para o pecado, como a mentira para a verdade.
O pecado, a mentira e a presença, não se dão.
O pecado, não sei se existe ou tem presença. Uma coisa tem, isso eu sei, tem a culpa da mentira.
A mentira é simples, é o oposto e o inverso da verdade, muitas vezes promovida pelo afastamento do sentir induzido, que o medo da verdade contem. A mentira abranda bastantes vezes a dor, mas nunca a transforma. A mentira é sempre a mentira, e a dor é sempre a dor.
A verdade é um ribeiro forte e invernoso em debandada pelo seu leito. Não cuida enquanto presença, mas cuida após o passar. Cuida com a ruptura e a inexistência da presença.
Cuida, como cuida do luar. Cuida, como cuida da noite. Cuida, como o meu “eu” cuida de mim.
Por mais ou menos isto: O pecado, a mentira e a presença, não se dão.
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