3ª feira

Deambulava pela estrada sem sorriso ou alento. Mil ideias feitas de revolução ardiam nos seus olhos transformados em pranto. Era dia de feira, ao longe, ouviam-se apregoados pregões de uns dizeres roucos e roufenhos não entendidos, mas ele sabia que se tratava das habituais ladainhas das terças-feiras de feira. Sabia existir uma multidão em formigueiro, há procura de uma outra multidão, não muito longe da sua solidão.




 


A feira não era apenas um sítio onde se trocava dinheiro por alimentos frescos ou roupa barata. A feira era tudo. Era o encontro semanal de olhares. Os bons dias em saudação habituais. Os sorrisos. As mulheres. Os homens. As crianças. Os velhos. Os novos e os de meia-idade. A feira era a cidade num largo improvisado de vida e reencontro. Era quase uma oração conjunta e simultânea. Era quase a decisão política e o futebol. A revolução e a tomada de decisão. Era o anúncio da maternidade e o obituário. Era a gente séria e a outra. O ébrio e o sóbrio. Os militares e os civis. Era tudo e era ninguém. Era o rio mesmo ali. E eram as caras. As caras feitas de face rosadas e plácidas, o povo e os senhores, as mulheres e as amantes, tudo junto na terças-feiras da minha cidade.


 



A feira é a minha cidade, num largo improvisado de vida e reencontro às terças-feiras abraçada.

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