Outubro

Encantas-me com essa luz emergente que emanas dos teus olhos. Soltas fresco o Outubro nesse andar dançante. A lua dependurada prende-te o cabelo. Descalça, sais com o final do brilho do dia e, na noite, enlaças o mar por inteiro nas tuas mãos. Escutas breve o momento dilacerado do grito da rocha penetrada pelo desaguar da maré. O céu sorri inteiro na tua boca e no teu peito sucumbe a madrugada. Devota, ergues o que de ti te prende à vida, em orações representadas nas planícies que herdaste do vento e marcas na areia. Não és mais a foz, transformaste-te na nascente, abraçada, rejuvenesceste. Renasceste como um jardim branco de rosas reflorescidas. Como um voo recuperado de esperança, terno e longo, como o afago do reencontro com a saudade.


 


Quando me cruzo em ti, um motim incontrolável desconstrói a minha alma e razão. Um precipício obsceno de descaro sai em tremura nos meus passos e em gaguez das minhas palavras. Suo, quase desfaleço de não te querer diante de mim, nem longe do meu espírito. Não sei dizer o meu nome e esqueço o que aprendi. Sinto-me prematuramente ausente, como se, se tivesse apagado em mim, eu próprio. Não sei o que significa amor, dei-lhe um significado inexistente, apenas sei o que significa este desajustado sentir e esta inadequada e intimidada atitude. Já não me revejo, mas sinto que o mundo inteiro me observa, e os amantes me comtemplam, no entendimento que desentendo por desconhecido.


 


Ao invés, tu exalas um ar leve e tens no alaranjado sorriso, o pôr-do-sol no teu âmago. Calças sandálias que te desnudam os passos, e, sei-te, abençoada numa praia onde não vou estar, porque escolhi o som do deserto para a estrelar a minha noite. Tu junto ao mar e eu dentro do meu deserto.


 


Espero reencontra-te no Outubro que soltas fresco na tua imensidão.

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