É? Foi?...

Detinha nos olhos pérolas ou diamantes, sei que era um ser de luz, não consegui verificar para além de tanta claridade. Sei o que se diz, e o que se diz é que mantem contactos com quem já partiu. A aldeia inteira foge do que dizem. Eu procuro o que oiço dizer, aquela cegueira de clareza chama-me.


 



Numa manhã morna de Maio, na calçada do ribeiro, cruzei-me com a Laura e sorri-lhe. Logo ali me perguntou.


 


- Então, não tens medo do que dizem por aí de mim?



 


- Respondi que o que dizem, não é equivalente ao que oiço.


 


Num tom muito sumido balbuciou um: “sei”.


 


Disse-lhe que do local de onde eu venho, ouvir dizer, é como atirar pedras ao ribeiro que se ouve cristalino, e, esperar em troca que brote dele um oceano.


 


- Como assim? Respondeu!


 


Continuei. Normalmente o que se ouve dizer ganha a dimensão de um oceano e é apenas um ribeiro, ou é um ribeiro que dizem ser um oceano, eu, sem mergulhar em ambos, jamais saberei o tamanho da sua corrente, ou as lágrimas que eles contêm.


 


- Gosto de ti, disse-me. Entendo o tamanho do teu encantamento. Sabes, aqui a solidão é uma dádiva, não poderia nunca semear a minha liberdade nesta terra árida, onde nada se sabe, e tudo se diz, e, isso é apenas medo de se saber.


 


- Também te entendo, retorqui.


 


- E tu és do onde, perguntou-me?


 


Eu sou do sítio que me habitar, e não do sítio onde habito. Agora sou deste lugar que é o sítio que me habita. Mas já fui do céu, do mar, da terra, do vento, do sol, do nevoeiro, do trilho, da maresia, do poente e já fui pássaro de voar, mas sou humanidade mais do que outra coisa qualquer. Como poderia eu não ser isto e ser outra coisa qualquer?


 


- Olha, eu sou vida e a sua evolução. Sou todos os dias a vida e a morte. Morte pela solidão que me mantem viva, e vida porque te encontrei neste ermo, e hoje, tu és a minha vida. Tenho um filho que não vejo desde que partiu, e já partiu há muito, voltou hoje em ti, e é por estas diferenças destes meus “sentires” enganados, que as pessoas dizem o que eu não digo, por ouvir dizer…


 


É? Foi?...

Comentários

  1. Olá, Jorge! Ler-te. É uma viagem alucinante. Um momento de puro encantamento. Obrigado por mo proporcionares . Excelente, nem sei que diga, tocou-me, como nunca fico indiferente ao que fazes. Beijinho amigo espero que tudo esteja bem contigo e que o teu fim de semana seja magnífico. DE encontro a todas as tuas expectativas. Beijinho. Fica bem! Beijinho à filhota. Tudo de bom!!!

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