Ardida vida minha
Ardeu o cimo da serra do meu monte. Agora despido de verde, ficou negro. Está cor de carvão a montanha dos meus sonhos. Agrura desmedida fecunda no meu peito, de cada vez que circundo a velha estrada do meu refúgio. Um dia o meu peito revigora, no outro acabrunha. O lago anil desconfigurou, a acidez latente humana espelhou-se na serra. É sempre assim a cada temporal de verão que por aqui passa.
Agora recomeçará a época que rebentará em novas flores e pinhos, e amaciará o chão seco de estação. Isto tudo, e tudo isto, é como a minha alma. É como a alegria e a tristeza, é como o deambular por entre a multidão, é como a invisibilidade, é como a solidão e os afectos. Tudo isto é, a expressão vigorosa de sentir. Tudo isto se reflecte e me projecta para o meu eu, sacrificado e glorificado. Para o meu eu ateu e crente, satisfeito e insaciado.
As estações são como os meus estados de espirito, podendo este não se identificar com o que normalmente são as estações. Sou feliz no inverno podendo não sê-lo de verão. Sou tudo e nada, e nada é, muitas vezes tudo o que necessito para ser tudo.
Esta louca magia faz em mim brotar um sentir são, que preservo numa esquizofrenia residual e residente. Os montes de serras, as marés do mar, os elísios ventos, as tempestades, o sol, a lua e o luar, são demoníacos estados de calmaria e bem-aventurança que detenho, a cada dia viajado que me é dado pela idade.
Arde em mim como na serra, vida !
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