“Quero, posso e mando”

“Quero, posso e mando” respondeu-me, sem sequer me olhar e não se importando com o que eu, antecipadamente, pudesse pensar da sua gélida expressão.


 


Eu também não disse nada. Continuei imóvel a remexer as brasas soltas, invernosas e estaladiças que dançavam na lareira. O frio lá de fora não entrava por aquela porta. Estava desautorizado. O silêncio era solidário com o inverno. A chuva com o vento. Os trovões com o ar zangado dela.


 


De repente soltou um:


“Então, não dizes nada, és como a morte, mais valia estar acompanhada por ela mesmo, assim não tinha que te ver vivo sem viver. Estás aborrecido? O que tens? Havias de arranjar uma fêmea que te cedesse o seu corpo, sempre te entretinhas a ti e entediavas a ela, em vez de a mim”.


 


Continuei entretido com as minhas brasas simétricas e companheiras.


Voltou a falar-me, agora menos zangada, mas mais enfurecida:


 


“Fala homem, não te esfaqueies assim tanto por dentro, o que tens? Vá lá, troveja”.


 


Olhei-a com uns olhos que detesto, por sentir que gritam perturbação e disse:


 “ Se tu queres, podes e mandas, eu ambiciono, anseio e dirijo”


 


“ O quê? Esse teu cérebro transformou-se na adega onde vives, acrescentou a gritar. Eu posso sim senhora, posso lembrar-me da felicidade, escolher desistir, recordar o meu homem, e o que ele fazia ao meu corpo. Posso lembrar-me da sua boca, das suas mãos, das suas costas, pernas e peito. Posso rebolar-me na eira a cada descamisada. Posso olhar o rio e dizer que ele se enrola comigo. Posso não cumprimentar. Posso ser ateia e crente. Isto, eu posso tudo. Isto tudo eu quero, e nisto tudo eu mando, entendes? Entendes tu esta ausência? Entendes tu este querer, de poder e mandar? Ouviste? Eu quero, posso e mando.


 


Quero de querer,


Posso de possibilidade,


Mando de determinação …


 


Ousa querer … e podes. Recomendou-me

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