Somos tão maciços!...
… As piores coisas que fiz foram as melhores. Cresci.
Nunca tive problemas de essência, tive problemas essenciais e de necessidade básica. Tive muito mais medo do que frio, mais solidão do que fome, mais por demais ser, do que mais por demais ter. Fui mais despertencente do que o contrário. Tentei ser pertença a outros quaisquer.
Em todos os finais de tarde, o sol caiu sempre da mesma maneira do céu, e eu da mesma forma juntamente, esperei pelas horas até à manhã do dia seguinte, esperando um recomeço que sabia não pertencer ao meu existir….
…Como assim perguntei?
És tão denso. Denso de uma espessura inexplicável. É-me difícil saber-te com essa amálgama de existência, entendes? Olho para ti e vejo dentro de ti coerência, perspicácia, inteligência, segurança, e um mundo que dominas e entendes. Vejo fascínio no teu olhar e luz a brotar do teu sorriso. Mas depois, ao ouvir-te, sinto uma angústia quase somática, vejo o teu corpo expurgar movimentos baços numa irreverente inadequação. És muito denso, quase encerrado, e ao mesmo tempo, tens um mundo exposto que se gosta de admirar como um poema, cada sílaba tua relida, torna-se numa nova interpretação. Não tens fim. Não sei sequer o início. Entende-me? Perguntei!...
… Entendo.
Entendo-te muito bem.
Surpreende-me a tua discrição. Surpreende-me sentir que entendes tão bem o meu conceito de amizade, de distância e proximidade. Surpreende-me entenderes tão bem, o meu conceito de vida e de morte. Surpreende-me, saberes que sinto que existem tantos mortos ainda vivos, e tantos vivos já mortos. Surpreende-me, não te conseguir esconder este desajuste existencial. Surpreende-me, leres-me o olhar e veres nos meus passos a minha vida. Surpreende-me, veres no meu balançar o luar, mas não me surpreende veres em mim, densidade.
Não me surpreende, porque a densidade de tão clara e forte que é, é escura e imperceptível para tantos, e é óbvia e luminosa para os que, como tu, habitam esta ilha dos juízos.
É nesta ilha que afinal vivo e me reponho a cada dia que passa.
É nesta ilha que aglomero quem por mim passa e existe.
É nesta ilha que aglutino o eu, que não excluo.
É nesta ilha não baptizada, que me altero e sou.
É nestas ilhas de vida que vou vivendo e sendo.
Somos sentires habitados, ilhas sem nome, escritas pelas vidas que habitam no que somos.
És tão denso!... Somos tão maciços!...
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