Escrevo para separar o sentir

Escrevo para separar o sentir, e escrevo para aproximar o sentir.


Escrevo para não sentir o comum dos sentires, e escrevo para sentir uma incomum sensibilidade onde não existem luzes coloridas, ou barrocos bonecos carregados de uma fardo sinalizado de religião e profanado sentido.


Escrevo desnudado de coração e adornado de tripas.


Escrevo a escravidão da direcção induzida e a liberdade solta do pensamento.


Escrevo porque não creio, e creio no que escrevo por ser o resultado do sinto.


Não escrevo natais, nem carnavais, nem festas pascais.


Escrevo miséria e liberdade, tolerância e presídio, devoção e afecto, e, escrevo das entranhas fiéis da futilidade vigente.


Escrevo passado na primeira pessoa do presente, e escrevo sonho na forma condicional da fantasia.


Escrevo porque me alivia a mágoa e me seduz o alegramento.


Escrevo incólume e inteiro das partes de que sou construído.


Escrevo porque me alimento de entendimento e me chicoteio da obtusidade.


Escrevo somente porque as letras me bailam nos sentidos, e atropelam as passadas com palavras.


Escrevo para caminhar sem barreiras e clarear nos meus olhos, pensamentos.


Escrevo porque sou escrita redigida de vida.


Felizmente já não há natal, mas há luar e noites brancas com frio. Encantadas.

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