Inferno adulterado

Lembro-me de um céu aberto e um sol lindo,


Uma encosta cheia de sorrisos e sonhos inventados por concretizar.


Lembro-me dos rouxinóis a cantarolar e esquivos nos murmúrios,


Das mulheres que tinham as mãos como os homens,


Da criação dos filhos, e o manter cheiro a lavado pendurado nos entendais brancos de roupa.


Lembro-me dos meus primeiros acordes copiados, das mãos de quem já sabia usar as cordas todas da viola,


Das noites de verão compridas e cumpridas,


Das estações serem delineadas como os corpos das primeiras raparigas em que reparei,


Dos sonhos desfeitos que fui tendo pela diferença,


Da miséria que se tornou no paraíso, e o inferno adulterado. 


 


Vivo como uma enxurrada renovada e diária,


Tenho rios feitos de veias nos meus braços,


Pensamentos de montanhas, e um céu de pássaros às cores a habitar-me no peito.


Tenho a Natureza como amante e o sonho como caminho,


Tenho escassos amigos, uma filha, e ainda um pai e uma mãe,


Tenho-me a mim recordado, reinventado e progredido.


 


Não sou igual a ontem,


Esse é o alento de me saber diferente,


Divergente,


Urgente,


Permutável e isento,


Num amanhã que aguardo entusiasmado por me saber para além de pensador,


Um fazedor de sonhos alcançados.


 


Borrifou-me a chuva antes de aqui chegar.


Antes o sol tinha-me queimado a pele e florido o meu sentir.

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